Concisão - 8 dicas para redação dissertativa-argumentativa do Enem / Politicamente correto: como policiar a linguagem?
- Corte, nas datas, os substantivos dia, mês e ano: em 10 de agosto (não: no dia 10 de agosto); em março (não: no mês de março); em 2018 (não: no ano de 2018).
Há palavras e palavras. Algumas informam. Outras emocionam. Há as que mobilizam para a ação. Todas têm hora e vez. Cuidado especial merecem as que ofendem ou reforçam preconceitos. Grupos organizados – movimento negro, movimento gay, movimento feminista – estão atentos aos vocábulos politicamente incorretos. Recomenda-se cuidado para não ofender nem agredir o leitor ou o ouvinte.
Mas não exagere. Cabeleireiro é cabeleireiro, não hair stylist. Costureira é costureira, não estilista de moda (outra especialidade). Manicure é manicure, não esteticista de unhas. Empregada doméstica é empregada doméstica, não secretária do lar. Dona de casa é dona de casa, não do lar ou especialista em prendas domésticas. Cego é cego, mudo é mudo, surdo é surdo, surdo-mudo é surdo-mudo. Às vezes, portador de necessidades especiais. Pessoa com deficiência nem sempre tem a precisão desses termos. Quando necessário, use-os sem constrangimento.
Curiosidade
O radialista Airton Medeiros estava entrevistando ao vivo a presidente de uma associação de cegos em programa da Rádio Nacional. Tratava-a de cega até receber um papelzinho com a recomendação de que a tratasse de “pessoa com deficiência visual”. Antes de obedecer à ordem, perguntou se deveria continuar tratando-a de cega ou tinha de mudar para pessoa com deficiência visual. Ela aproximou as mãos do rosto dele até tocar os óculos. Então afirmou: “Pessoa com deficiência visual é sua gramática, que está desatualizada. Eu sou cega”.
Alvo
Cor, idade, peso, altura, origem, condição social e tendências sexuais são as principais vítimas das brincadeirinhas, piadas preconceituosas ou uso “sem intenção de ofender” . Como agir?
1. Alto, baixo, gordo, magro, grande, pequeno são relativos. Alguém pode ser alto pra uns e baixo pra outros. Diga a altura, o peso, o tamanho: 1,95m, 50kg, 300kg.
2. Negro é raça. Nessa acepção, use-o sem pensar duas vezes. Pelé é negro. Não é escurinho, crioulo, negrinho, moreno, negrão ou de cor.
2.1. Evite o adjetivo negro em expressões de conotação negativa. Em vez de nuvens negras, prefira nuvens pretas ou escuras. Em lugar de lista negra, dê nome aos bois: lista de maus pagadores, lista de alunos relapsos, lista de sonegadores.
2.2. Apague denegrir de seu dicionário. Prefira comprometer. Elimine também judiar (da família de judeu). Substitua-o por maltratar.
2.3. Quer indicar cor? O preto está às ordens.
3. Paraíba, ceará e cabeça-chata? Não. Identifique e especifique o estado de origem com precisão (maranhense, paraibano, pernambucano, cearense). Se quiser generalizar, use o adjetivo indicador da região: nordestino, nortista, sulista. Não use baiano, exceto se o referido for realmente natural da Bahia.
4. Bicha, veado, sapatão, pé 44? Xô! Fique com homossexual, gay, lésbica, LGBT. No sentido de pederasta passivo ou homossexual do sexo masculino, não existe 'viado', exceto no sentido de tecido de lã, com riscas ou veios.
Diga
chinês, coreano, japonês (não: japa, china, amarelo)
idoso (não: velho, vovô, decrépito, gagá, pé na cova)
pobre, pessoa de baixa renda (não: pobretão, pé de chinelo, ralé, mulambento, arraia- miúda, povão, plebe, gentalha, gentinha, povaréu, corja, populacho, escória)
pessoa com deficiência ou pessoa com necessidades específicas (não: portador de deficiência, pessoa com necessidades especiais)
religioso (não: papa-hóstia, igrejeiro, carola, barata de igreja, beato)
travesti (não: traveco)
prestador de concurso público (não: concurseiro, concursando)
prestador de exame vestibular (não: vestibulando)
prestador do Enem (não: enemzeiro)
professor de português e redação (não: gramatiqueiro)
cego ou deficiente visual (não: ceguinho)
surdo ou deficiente auditivo (não: surdinho, mudinho)
deficiente intelectual, paciente psiquiátrico ou pessoa com transtorno mental (não: deficiente mental, excepcional, doente mental, retardado, débil mental)
hanseníase e doente de hanseníase (não: lepra, leproso)
doente de aids ou portador de HIV (não: aidético)
pessoa com epilepsia (não: epiléptico)
pessoa não-deficiente (não: pessoa normal)
pessoa que usa cadeira de rodas ou deficiente físico (não: pessoa presa ou confinada a cadeira de rodas, cadeirante)
pessoa com tetraplegia (não: tetraplégico)
pessoa com autismo (não: autista, exceto em títulos de reportagens e notícias)
pessoa com sequela de poliomielite ou paralisia infantil (não: vítima)
negro (não: escurinho, crioulo, moreno, negrinho, negrão)
comprometer ou maltratar (não: judiar, denegrir)
índio (não: indígena, que é adjetivo, e não substantivo)
pessoa de origem asiática (não: asiático)
Conclusão
Vale o bom senso. Na dúvida, pergunte-se se a palavra ou a expressão podem ofender alguém ou reforçar preconceito. Se a resposta for sim, busque alternativa.
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