Concisão - 8 dicas para redação dissertativa-argumentativa do Enem / Politicamente correto: como policiar a linguagem?

  1. Corte, nas datas, os substantivos dia, mês e ano: em 10 de agosto (não: no dia 10 de agosto); em março (não: no mês de março); em 2018 (não: no ano de 2018).
2. Elimine palavras ou expressões desnecessárias: processo de adaptação (adaptação); decisão tomada no âmbito da diretoria (decisão da diretoria); trabalho de natureza temporária (trabalho temporário); problema de ordem sexual (problema sexual); curso em nível de pós-graduação (curso de pós-graduação); lei de alcance federal (lei federal); doença de característica dermatológica (doença dermatológica).
3. Troque a locução adjetiva por adjetivo: objetos para crianças (objetos infantis); pessoa sem emprego (pessoa desempregada), discurso sem novidade (discurso repetitivo).
4. Substitua a oração adjetiva por adjetivo: animal que se alimenta de carne (animal carnívoro); empresário que planta café (cafeicultor); profissional que não presta atenção (profissional desatento), pessoa que não come carne (vegetariana ou vegana).
5. Use aposto em vez de oração subordinada substantiva apositiva ou oração subordinada adjetiva explicativa:
Brasília, que é a capital do Brasil, oferece serviços públicos de boa qualidade. (Brasília, capital do Brasil, oferece serviços públicos de boa qualidade.
6. Troque a oração pelo termo nominal correspondente:
O diretor exige que o relatório seja apresentado. (O diretor exige a apresentação do relatório.
   7. Corte artigos indefinidos. Em 99% das frases, eles são dispensáveis, a menos que o 'um' seja numeral:
Houve (um) troca-troca de profissionais jamais visto. O diretor quer traçar (uma) nova política de recursos humanos. Os funcionários  pediram (um) aumento de salário.
8. Casse possessivos. O seu constitui uma das piores pragas do texto. Além de sobrecarregar a frase, com frequência torna o enunciado ambíguo. Omita-o ou substitua-o pelo artigo, principalmente em referência a partes do corpo, peças de vestuário, objetos de uso pessoal, faculdades do espírito e relações de parentesco:
A campanha foi equilibrada até o (seu) final.
Para manter o (seu) ritmo de crescimento, o agronegócio precisa de excelentes estradas.
O empresário endurece as (suas) críticas ao governo.
Ufa!

Há palavras e palavras. Algumas informam. Outras emocionam. Há as que mobilizam para a ação. Todas têm hora e vez. Cuidado especial merecem as que ofendem ou reforçam preconceitos. Grupos organizados – movimento negro, movimento gay, movimento feminista – estão atentos aos vocábulos politicamente incorretos.  Recomenda-se cuidado para não ofender nem agredir o leitor ou o ouvinte.

Mas não exagere. Cabeleireiro é cabeleireiro, não hair stylist. Costureira é costureira, não estilista de moda (outra especialidade). Manicure é manicure, não esteticista de unhas. Empregada doméstica é empregada doméstica, não secretária do lar. Dona de casa é dona de casa, não do lar ou especialista em prendas domésticas. Cego é cego, mudo é mudo, surdo é surdo, surdo-mudo é surdo-mudo. Às vezes, portador de necessidades especiais. Pessoa com deficiência nem sempre tem a precisão desses termos. Quando necessário, use-os sem constrangimento.

Curiosidade

O radialista Airton Medeiros estava entrevistando ao vivo a presidente de uma associação de cegos em programa da Rádio Nacional. Tratava-a de cega até receber um papelzinho com a recomendação de que a tratasse de “pessoa com deficiência visual”. Antes de obedecer à ordem, perguntou se deveria continuar tratando-a de cega ou tinha de mudar para pessoa com deficiência visual. Ela aproximou as mãos do rosto dele até tocar os óculos. Então afirmou: “Pessoa com deficiência visual é sua gramática, que está desatualizada. Eu sou cega”.

Alvo

Cor, idade, peso, altura, origem, condição social e tendências sexuais são as principais vítimas das brincadeirinhas, piadas preconceituosas ou uso “sem intenção de ofender” . Como agir?

1. Alto, baixo, gordo, magro, grande, pequeno são relativos. Alguém pode ser alto pra uns e baixo pra outros. Diga a altura, o peso, o tamanho: 1,95m, 50kg, 300kg.

2. Negro é raça. Nessa acepção, use-o sem pensar duas vezes. Pelé é negro. Não é escurinho, crioulo, negrinho, moreno, negrão ou de cor.

2.1. Evite o adjetivo negro em expressões de conotação negativa. Em vez de nuvens negras, prefira nuvens pretas ou escuras. Em lugar de lista negra, dê nome aos bois: lista de maus pagadores, lista de alunos relapsos, lista de sonegadores.

2.2. Apague denegrir de seu dicionário. Prefira comprometer. Elimine também judiar (da família de judeu). Substitua-o por maltratar.

2.3. Quer indicar cor? O preto está às ordens.

3. Paraíba, ceará e cabeça-chata? Não. Identifique e especifique o estado de origem com precisão (maranhense, paraibano, pernambucano, cearense). Se quiser generalizar, use o adjetivo indicador da região: nordestino, nortista, sulista. Não use baiano, exceto se o referido for realmente natural da Bahia.

4. Bicha, veado, sapatão, pé 44? Xô! Fique com homossexual, gay, lésbica, LGBT. No sentido de pederasta passivo ou homossexual do sexo masculino, não existe 'viado', exceto no sentido de tecido de lã, com riscas ou veios.

Diga

chinês, coreano, japonês (não: japa, china, amarelo)

idoso (não: velho, vovô, decrépito, gagá, pé na cova)

pobre, pessoa de baixa renda (não: pobretão, pé de chinelo, ralé, mulambento, arraia- miúda, povão, plebe, gentalha, gentinha, povaréu, corja, populacho, escória)

pessoa com deficiência ou pessoa com necessidades específicas (não: portador de deficiência, pessoa com necessidades especiais)

religioso (não: papa-hóstia, igrejeiro, carola, barata de igreja, beato)

travesti (não: traveco)

prestador de concurso público (não: concurseiro, concursando)

prestador de exame vestibular (não: vestibulando)

prestador do Enem (não: enemzeiro)

professor de português e redação (não: gramatiqueiro)

cego ou deficiente visual (não: ceguinho)

surdo ou deficiente auditivo (não: surdinho, mudinho)

deficiente intelectual, paciente psiquiátrico ou pessoa com transtorno mental (não: deficiente mental, excepcional, doente mental, retardado, débil mental)

hanseníase e doente de hanseníase (não: lepra, leproso)

doente de aids ou portador de HIV (não: aidético)

pessoa com epilepsia (não: epiléptico)

pessoa não-deficiente (não: pessoa normal)

pessoa que usa cadeira de rodas ou deficiente físico (não: pessoa presa ou confinada a cadeira de rodas, cadeirante)

pessoa com tetraplegia (não: tetraplégico)

pessoa com autismo (não: autista, exceto em títulos de reportagens e notícias)

pessoa com sequela de poliomielite ou paralisia infantil (não: vítima)

negro (não: escurinho, crioulo, moreno, negrinho, negrão)

comprometer ou maltratar (não: judiar, denegrir)

índio (não: indígena, que é adjetivo, e não substantivo)

pessoa de origem asiática (não: asiático)



Conclusão

Vale o bom senso. Na dúvida, pergunte-se se a palavra ou a expressão podem ofender alguém ou reforçar preconceito. Se a resposta for sim, busque alternativa.

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